Quase 400 dias de pandemia e um isolamento que transcende as paredes da minha casa. É uma solidão da alma, que dói em cada célula do corpo.

Quem nunca se pegou pensando em como viviam as pessoas que estavam atravessando grandes momentos históricos? Eu sempre me perguntava se elas se davam conta do que estavam vivendo ou se apenas seguiam vivendo um dia de cada vez. Bem, falo por mim, hoje eu sou essa pessoa. sei que atravesso um grande momento histórico, o vivo intensamente todos os dias desde março de 2020, não mais intensamente do que quem está na “linha de frente”, claro, mas dentro da minha realidade, vivo todas as mudanças e não, eu não me acostumei (e nem pretendo). Tento escapar da dor e mergulho em universos particulares, me apego às pequenezas da vida para que a vida em si não seja em vão. Porque estou viva, meus filhos estão vivos e bem, apesar de tudo.

Ouço desde sempre a ideia de que o ser humano se adapta a qualquer situação, por mais adversa que seja. Bem, acho que isso é verdade, o que não significa que seja confortável ou agradável. A gente se adapta, descobre novos caminhos, perde muito, ganha um pouco e sobrevive, quando se tem sorte. E esse é o ponto central, sobrevivência. Manter-se vivo, respirando, vivendo do jeito que dá. Do jeito que dá. E até quando não dá, a gente se adapta mais um pouco e faz dar certo. Assim, meio torto, meio na gambiarra, se acha um jeitinho.

Hoje meu jeitinho tá sendo esse, escrever um pouco da dor, da (falta de) perspectiva. Hoje essa falta chegou pesando uma tonelada no peito. Talvez eu não devesse me importar tanto, talvez eu melhorasse se não pensasse tanto, se não sentisse tanto. Mas aí não seria eu e o mundo que já anda tão do avesso e retrocesso, perderia totalmente seu sentido.

Ontem caiu o primeiro dente da minha filha e foi essa queda que salvou meu dia. Mergulhei de cabeça nesse universo particular e, por alguns momentos, foi delicioso nadar em águas calmas e mornas. Aí o peso das mais de 341 mil mortes por covid no Brasil deu uma paulada na minha cabeça, eu fiquei tonta e em seguida, acordei. De volta à realidade.

Fico nesse indo e vindo entre universos. Medito, rezo, rego, cuido, assisto, leio, como, vivo. Um dia de cada vez. Vai passar. Vai passar. Vai passar. Repito como um mantra. Vai passar. Enquanto não passa, preciso viver, mesmo com dor, peso, angústia, preciso viver. Preciso sentir tudo, a dor catastrófica e a alegria pacificadora de um dente que cai. Chorar e sorrir por motivos que não deveriam coexistir, mas existem.

Respiro fundo. Repito pela centésima vez, VAI PASSAR. Mas, enquanto não passa, estou aqui, vivendo o agora. Eu não queria esse agora, mas é o presente que tenho. Nunca foi tão irônico o presente se chamar presente. Quem acha que esse presente é um presente? Que piada terrível! Mas é o que tenho, é o que temos.

Respira fundo aí também. Usa máscara, fica em casa (se puder), beba água e repita comigo: vai passar.

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