Uma das coisas que mais mexeu comigo quando engravidei foi a mudança do meu corpo. Logo no começo da gestação senti meus seios diferentes e, com o passar das semanas, as mudanças foram ficando mais e mais visíveis. Adeus, cintura! Olá, quadril à la Kardashians! Se faltasse bola num jogo de basquete, eu emprestaria um peito meu facilmente… Durante a gravidez, além dessas e tantas outras mudanças externas, acontecem outras tantas internamente e é aí que o bicho pega (mas deixarei esta pauta para outra ocasião. Por enquanto focarei apenas nas mudanças que o espelho reflete). Pois é, espelho… eu me olhava nele e já não me reconhecia direito, muita coisa se transformou em pouquíssimo tempo. A enxurrada de amor por Benjamim fez tudo fluir mais gostosinho, mesmo quando as estrias na barriga começaram a aparecer (lá pela 34a semana de gestação – lembro como se fosse hoje).

O grande dia chegou, Benjamim nasceu, tudo correu bem, todos com saúde. Chegamos em casa, tanta correria nos primeiros dias que mal tive tempo de me olhar no espelho (eu estava evitando esse momento, hoje percebo isso claramente. Saí da maternidade com meu filho no colo, mas a barriga parecia que ainda tinha uma criança dentro de tão grande. Naquela época eu não fazia a mínima ideia de que a coisa se dava dessa maneira e me ver daquele jeito me chocou, confesso (eu jurava que era só a criança nascer que a barriga voltava ao “normal”). Fiquei arrasada, mas o bonde seguiu, tinha que seguir. Logo as preocupações em manter aquele ser humaninho vivo e bem tomaram conta de toda a minha existência e eu deixei o resto do mundo em segundo plano.

Dias, semanas, meses passaram, a barriga foi diminuindo, os seios já não eram tão grandes assim (com o passar do tempo, a mãe produz o leite necessário para o filho, o corpo se adapta à amamentação e tudo entra nos eixos. Quer dizer, quase tudo!). Eu já conseguia me olhar no espelho, mas rapidamente, sem focar nos detalhes – quadril imenso, peitos caídos, estrias, flacidez…). Aquilo tudo me deixava mal e eu não contava para ninguém, não me achava no direito de me sentir assim porque eu tive um filho, meu corpo mudou e eu tinha que aceitar tudo calada e feliz. Hoje eu concordo com a parte da aceitação, mas não da maneira como se deu. Tanto que só agora consigo escrever numa boa sobre tudo isso – quase oito anos depois e com mais uma gravidez gemelar na conta. O corpo muda, isso é fato, mas o jeito que a gente encara a mudança é o X da questão. Vem o combo mídia manipuladora fdp, celebridades parindo e saindo saradas da maternidade, pressão sócio-cultural machista esmagadora de autoestima e faz o quê com a gente, pobres mortais? Isso mesmo, deixa a gente mais infeliz do que nunca com o que vemos refletido no espelho.

Tive que viver uma espécie de luto e isso foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Doeu? Doeu. Mas foi necessário. Hoje me sinto como uma borboleta, o luto foi meu casulo, minha transformação.

Demorei bastante para me reconhecer, para aceitar e amar a nova pessoa que estava ali. Hoje eu compreendo que esse corpo é o reflexo de tudo que vivi até hoje. Ele tem marcas que contam minha história, ele tem dobras que contam sobre meu jantares deliciosos ao lado de pessoas que amo, tem estrias porque pari 3 crianças (a gravidez de Nina e Joaquim – minha segunda gestação – foi totalmente diferente, me amei loucamente desde o começo até o fim, mesmo no pós-parto, barriguda, exausta… o espelho se tornou meu amigo, fiz as pazes comigo e isso foi libertador). Mas antes de fazer as pazes, que fique bem claro, houve um longo processo. Foi como se eu tivesse que me despedir de mim, as enterrar falsas expectativas, admitir que nada seria do mesmo jeito outra vez. Tive que viver uma espécie de luto e isso foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Doeu? Doeu. Mas foi necessário. Hoje me sinto como uma borboleta, o luto foi meu casulo, minha transformação. Se você se sente assim, se você não consegue passar por isso sozinha, não se cale, procure ajuda. Se quiser, me procure (falo sério), estou de coração e braços abertos.

Eu sei que hoje existe muito mais acesso à informações e conteúdos bacanas sobre isso, eu sei que estamos no caminho certo, mas ainda falta muito e acredito que, apesar de tudo, engravidar continua sendo a coisa mais desafiadora que existe. A pressão do combo continua firme e forte, mas mais e mais mulheres levantam e defendem cada vez mais a bandeira de que o amor próprio deve vir sempre em primeiro lugar porque nosso corpo é nosso templo, ele não precisa seguir padrão nenhum, ele não precisa ser aceito por ninguém além de você. Julgar menos e amar mais. O corpo muda, mas o que não muda? E que bom que as coisas mudam, é sinal de crescimento, amadurecimento, evolução.

Se eu pudesse voltar no tempo e me dar um conselho, eu diria apenas: ame-se. Parece bobagem, mas isso muda TUDO! Vale para grávidas, vale para quem nunca teve e nem terá filhos, vale para todas as mulheres. Uma vida inteira de opressão pesa muito, mas somos mais fortes do que tudo isso.

Você pode se exercitar, você pode comer bem, você pode o que quiser, desde que seja por você. E que tenhamos saúde (física, mental, emocional e espiritual) para seguir em frente, rompendo barreiras e ousando ser quem somos. Porque somos muito mais que um corpinho pros outros admirarem.