Nem sei direito por onde começar, afinal de contas falar sobre algo tão forte, tão “pesado” não é uma tarefa fácil… Estou falando dela, da irremediável, da temida, da indesejada, da única certeza que temos na vida. Sim, é ela mesmo, a morte.

Escrever sobre a morte, para mim, que acredito que a vida terrena é apenas uma experiência das muitas que experimentamos, pode até ser difícil, mas nem tanto. Para continuar, vou (tentar) colocar minhas crenças de lado e escrever não exatamente sobre a morte, mas sobre o que ela trás consigo.

O ser humano nunca está preparado para a morte de alguém que ama. Mesmo que esse alguém esteja doente e você passe um longo período acompanhando o avançar do quadro, mesmo que você veja, dia após dia, aqueles olhos que antes brilhavam perderem sua vivacidade habitual…

Sempre existe uma ponta de esperança, a flor que nasce no meio das pedras do sertão, um oásis no deserto. No meio da dor e do sofrimento, a gente encontra a força do amor que nutre essa florzinha chamada esperança dentro da gente.

Mas um dia o inevitável acontece… E a morte chega. Chega devagar, chega de repente. Não importa tanto como e nem quando, ela chega. A morte chegou para mim algumas vezes durante a minha vida, mas nenhuma vez ela me arrebatou como agora. E talvez seja por isso que resolvi escrever sobre ela. Talvez isso me alivie de alguma maneira, talvez alivie você que está lendo, talvez não… Enfim, minha primeira “perda” aconteceu com um aborto espontâneo. Tudo aconteceu tão rápido que na hora eu nem entendi direito o que estava acontecendo, foi um turbilhão de emoções e sentimentos que eu só consegui digerir, processar, compreender muito tempo depois. Anos, na verdade. A segunda vez que a morte me visitou foi quando minha avó paterna se foi. Aí doeu no mesmo momento que eu soube, foi uma facada da vida, daquelas que deixam a gente sem fôlego. Foi por ela ter partido, foi por ser eu a dar a notícia ao meu pai, foi por todo o amor e por tudo que ela representou e representa para mim. Doeu, hoje não dói mais, a saudade já trás uma lembrança gostosa, ainda mais quando sinto cheiro de café passado e de torrada (pão com queijo na chapa – que ela fazia com uma frigideira e uma chaleira. Colocava o pão na frigideira e o amassava com a chaleira. Melhor torrada até hoje não provei. E parece que algumas lágrimas escorreram aqui…). A terceira vez foi meu avó materno, meu Joquinha, que também doeu no ato, doeu de me paralisar toda, de eu achar que nunca mais ia parar de doer. Mas também parou. A saudade, claro, permanece, junto com tudo que a gente viveu, com todas as vezes que andamos de bicicleta, que escrevi cartas para o presidente em seu nome e que acompanhei os sorteios da telesena com ele. A quarta vez é o motivo de eu estar aqui agora, abrindo minha alma nestas palavras. Porque eu não sei bem ainda como lidar com o que aconteceu, ainda é tudo recente e só ontem, mais de trinta dias depois que meu amigo morreu, eu consegui chorar. Foi a primeira vez que alguém que amo, alguém jovem, morreu. Sabe aquela pessoa que você admira, que deseja o bem, que é exemplo para você das mais diversas maneiras? Aquela pessoa que seria a última que você, na sua humilde opinião, mereceria passar pelo que passou. Mas ele passou, ele adoeceu, enfrentou a doença sem perder a doçura e a fé, sem perder seu sorriso, sem deixar que a doença levasse a leveza do seu espírito. E o seu dia de partir chegou. Chegou no dia que eu estava de partida para viajar com minha família toda, na eminência de realizar um grande sonho (e o trem que chega é mesmo o trem da partida). E eu não soube o que fazer. Logo de cara pensei em cancelar tudo, mas respirei fundo, repensei, refleti e concluí que o melhor seria viajar e viver aqueles dias inesquecíveis que estavam por vir. E assim foi, viajei, foi lindo, foi muito melhor do que eu poderia imaginar! Guardei minha dor numa caixinha e deixei a felicidade brotar, sem culpa, só senti o que precisava sentir. Não me arrependo. Hoje vejo que foi a melhor escolha que poderia ter feito. Só que a viagem acabou, voltei para casa… Primeiro correria, ajustar a rotina, escola das crianças, trabalho, casa, estudos… Ufa! Tudo no seu devido lugar, aparentemente, né? Porque a caixinha saltou de repente na minha frente, eu a abri e brah! Tudo de uma vez! Lágrimas, lágrimas, soluços e mais lágrimas. A ficha caiu. Nunca mais o verei, nem ouvirei seus conselhos, nem terei as melhores conversas. Depois de muito choro, um alívio na alma… Foi quando eu parei e pensei na morte, foi quando uma parte dela, que eu nunca havia percebido, se mostrou para mim. Se a morte é a única certeza que temos na vida, então ela não deveria representar perda. Claro que vai doer, claro que estar preparado para ela é algo tão surreal que eu até acredito ser impossível. Mas ela não significa perda, pelo menos não para mim. Não mais. E eu vou dizer a razão disso.

Desde essa epifania em meio ao choro e a saudade, eu refleti e concluí que ao invés de olharmos para a dor da partida, devemos olhar para a trajetória de quem partiu, para os momentos que compartilhamos com este alguém, por tudo que ele/ela fez enquanto estava entre nós. Ganhamos muito mais do que perdemos, ganhamos a oportunidade e o privilégio de amar, de viver ao lado dele/dela, mesmo que por tempo limitado. Mas tudo tem um fim, não é mesmo? Então sejamos gratos por tudo e principalmente por todos que cruzam nossa jornada, tanto por quem amamos, por quem está conosco todos os dias, tanto para aqueles que não vemos com tanta frequência, mas nem por isso são menos amados, até mesmo aqueles que o santo não bate muito, sabe? Por que esses nos ensinam também, sobre resiliência, respeito, empatia e tantas coisas mais.

A vida é um sopro, por isso não se importe em ser piegas ou brega, ame, abrace, aproveite cada momento, por mais simples que seja.

Porque tudo na vida tem um começo, um meio e um fim, inclusive nós mesmos. É como a Pitty canta: “não deixe nada para semana que vem porque semana pode nem chegar”. Vamos viver hoje, amar hoje, aqui e agora.

Beijos

P.S.: como eu falei lá no começo, talvez me aliviasse escrever sobre isso, talvez tenha aliviado você que leu. Posso afirmar que aliviou um pouco, pois ainda sinto doer, mas a alegria e a gratidão de ter vivido com eles (meu filho/filha que não conheci, mas amei e amarei sempre, meus avós Alcina e Joca e meu querido amigo Luiz) aquece meu coração e me faz querer ser uma pessoa melhor, para mim e para o mundo. Desejo o mesmo para você.

1 Comentário

  1. Lindo e verdadeiro, o verdadeiro viver é saber que estamos aqui momentaneamente e que a felicidade verdadeira é eternizar o momentâneo nos corações que tivemos a felicidade de tocar.