Atire o primeiro tablet a mãe/pai que nunca ouviu sua cria reclamar que não tem nada para fazer.

Semana passada estávamos em casa, era domingo, dia oficial de curtir a varanda, preguiçar no sofá e jogar conversa fora. Já faz um tempo que temos um acordo (eu e Benjamim – 06 anos), iPad só nos fins de semana e por tempo limitado. Como eu disse, era domingo, ou seja, o iPad estava liberado, mas Ben esqueceu de carregá-lo (concordamos que esta tarefa é dele) e ele chegou chateadíssimo e com a cara emburrada porque não tinha nada para fazer (ele havia esquecido o carregador na casa do avô). O dia estava lindo, a brinquedoteca cheia de brinquedos, livros, dois irmãos com energia total e dispostos a brincar o dia inteiro e pais querendo bater papo e “fazer um som” com a criançada. Mas a cara amarrou e nenhuma dessas alternativas fez Benjamim desamarrar a careta. E aí, algum leitor já passou por alguma situação parecida?

Aqui nós praticamos muita coisa que eu acredito que é legal e em 85,3% das vezes costuma dar certo. Nas demais vezes, vence a hiperconectividade dessa sociedade maluca e moderna em que estamos metidos. Nunca existiu tantas possibilidades de diversão e entretenimento para os pequenos e mesmo cheios de opções, eles parecem se cansar cada vez mais rápido. Estamos criando crianças ansiosas e insaciáveis? É isso mesmo que queremos? Pois é, e agora, Maria? Como fazer uma criança compreender e usufruir do “fazer nada”?

Claro que muitas vezes, ao vermos nossos filhos angustiados, agimos impulsivamente arrumando alguma coisa para eles fazerem e assim aliviar o incômodo deles e nosso (porque também temos muita coisa para fazer e nem sempre estamos disponíveis para brincar ou fazer alguma atividade com a criança). Ok, tudo bem fazer isso ALGUMAS VEZES, mas esse comportamento NÃO PODE virar rotina!

Estamos criando adultos menos criativos, mais robotizados, que precisam estar ocupados o tempo todo e que sentem que está sempre faltando alguma coisa. (Luciana Brites, psicomotricista e psicopedagoga do projeto NeuroSaber em São Paulo)

Um dos maiores problemas é o superestímulo que as crianças estão acostumadas porque elas aprenderam a vivenciar tudo muito rápido. Quando um vídeo termina no Youtube, segundos depois outro se inicia; quando a criança passa de uma fase em um joguinho, a próxima já começa na sequência. E tudo isso com cores demais, anúncios demais, sons demais! Não existem pausas e a criança finda por entrar no modo automático do entretenimento.

E você sabia que o tédio FAZ BEM? Ter tempo para “fazer nada” é essencial para que a criança adquira habilidades que irão fazer muita diferença em toda a sua vida. Lidar com a frustração e o tédio são apenas a ponta do iceberg nessa jornada. É importante dar uma chance para que ela aprenda a driblar o marasmo por conta própria. Dá para ajudar seu filho a extrair o melhor desse incômodo. Assim como a raiva e o medo, a frustração e o tédio são inevitáveis e é preciso aprender a lidar com estes sentimentos desde cedo. Pode ser difícil no começo, mas insista porque vale muito a pena.

Quando estamos sem nada para fazer, nosso cérebro constrói conexões. É quando ele elabora os estímulos que recebemos ao longo do dia: tudo o que ouvimos, vimos e sentimos. Principalmente para crianças menores, que absorvem muitos conhecimentos, é preciso ter tempo para apurar tudo isso.

Deixar a criança vencer o tédio não significa deixá-la sem ninguém por perto ou sem opções do que fazer.

Como você pode ajudá-la? De várias maneiras!

  • Incentive sua autonomia. Parte do que a criança pode aprender quando se sente entediada é que ela mesma precisa encontrar uma forma de quebrar essa monotonia e partir para a ação;
  • Dê opções. Você pode conversar come ela e elaborar em conjunto uma lista de todas as coisas legais a se fazer em casa. [Experimentei isso com Ben e eu muito certo. Conversamos e fomos escrevendo numa lousa as coisas legais que ele poderia fazer em casa. A conversa em si já foi divertida, rendeu muitas risadas. Foi delicioso para nós dois];
  • Dê uma volta. Sabe quando o seu filho está fazendo a lição de casa e começa a ficar disperso? É hora de dar uma pausa, levantar um pouco, talvez fazer um lanche, beber uma água. Você pode ensinar essa estratégia para ele (dependendo da idade) quando ele se sentir assim na escola.

Transformar objetos em brinquedos faz parte do processo criativo. O importante é a criança liberar esse fluxo e se divertir!

Ponto-chave do post: tédio e ócio não são a mesma coisa! Explico. Há uma linha tênue entre “fazer nada” e “nada para fazer”. O tempo livre pode se transformar em ócio ou em tédio, depende da maneira como se lida com ele.

Já ouviu a expressão ócio criativo? Ela é real. O ócio abre uma janela que dá acesso à criatividade. Não apenas para crianças, mas também para adultos. Quando estamos fazendo alguma atividade apenas porque gostamos, por prazer, livre de tensões, conseguimos relaxar e é nesse estado que as ideias surgem porque a pessoa está por completo naquele momento: cabeça, razão, emoção, corpo e espírito. O fato de de não estar cheio de preocupações e obrigações abre espaço para processos de criação. Certamente você conhece alguém ou aconteceu com você algo similar, como por exemplo ter uma grande ideia ou encontrar a resposta para algum problema quando estava totalmente relaxado (tomando banho, se exercitando, etc).

Quando não há atividades estruturadas, a criança explora o ambiente a partir de seus recursos, criando e aprendendo.

Penso em longo prazo, a imaginação e a criatividade desenvolvida nesses momentos de vazio, vão ser importantes para a criança em todos os aspectos da sua vida. A imaginação trás a fantasia para o cotidiano, deixando a vida mais leve, contribuindo para a socialização e a empatia, já a criatividade ajuda seu filho a solucionar problemas, a ter mais autonomia, a pensar “fora da caixa”.

Toda criança precisa de tempo para pensar e coisas simples. É assim que ela vai aprender a encontrar pequenas alegrias em cada momento da vida e saber aproveitar a cabeça livre para ter grandes ideias e liberar todo o potencial que existe dentro dele.

Concluindo a história de Benjamim… Ele amarrou a cara, ficou chateado e frustrado, cruzou os braços em sinal de que não estava aberto à negociação. Eu respirei fundo, sorri e fui tentando dialogar tranquilamente… Primeiro perguntei como ele estava se sentindo, depois falei que ele podia fazer tudo o que quisesse (menos televisão e iPad), dei espaço para ele digerir a situação e minutos depois voltei na brinquedoteca e ele estava concentradíssimo brincando com vários carrinhos e bonecos. Tanto que nem me viu quando cheguei perto.

Conclusão: funciona! Vamos permitir que nossos filhos se conectem mais com eles mesmos. Isso não quer dizer tirar a tecnologia, os jogos e afins. Equilíbrio é a chave de tudo e nem sempre o caminho mais fácil é o melhor e eu bem sei que queremos sempre o melhor para eles. Então vamos ensiná-los que o mundo pode ser muito melhor e mais divertido, basta um pouco de esforço e incentivo nosso.

Ah, e esse post foi feito para as crianças, mas esses dicas também servem para adultos. Já experimentou tirar um tempo do seu dia para fazer algo só para você? Pode ser até parar um pouco, respirar fundo e esvaziar a mente… Experimenta, vai! E depois me conta como foi. ;)

Post com trechos da matéria “Que Tédio”, revista Crescer, edição número 279.